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José Fernando Tavares

A UNIVERSALIDADE DA POESIA PAULISTA (PREFÁCIO)

Já por diversas vezes nos ocorreu considerar que a poesia, mais do que a essência pura de uma arte da linguagem, é também a expressão de uma cultura. Sabemos que a língua portuguesa possui uma formidável plasticidade poética, e essa qualidade tem permitido a expansão, não só apenas da língua propriamente dita, mas, sobretudo, a expansão daquilo a que podemos chamar de o gênio poético que marca muita da singularidade Lusíada no contexto universal. Nunca será demais repetir estas considerações, por forma a que as gerações mais recentes possam interiorizar esta realidade indiscutível. Se a evolução civilizacionista é passível de uma discussão ou de um confronto de idéias, a singularidade cultural já será menos, pois não esta ao nosso alcance discutir daquilo que é inato em nós mesmos: uma cultura, mais do que a sua circunstância, é, acima de tudo, a sua verdade.

A língua portuguesa continua a ser a mediadora fundamental entre a cultura portuguesa e a cultura brasileira. A Antropologia Cultural diz-nos que cada cultura possui sua especialidade: jamais poderá prever-se cópia ou imitação entre culturas, da mesma forma que existe expressões culturais que se tocam através de um conjunto de características que partem de um fundo comum. Esta idéia serve-nos para realçar que os representantes da cultura brasileira (nomeadamente os escritores) mantêm uma ligação bastante forte com a expressão literária de Portugal. De resto, supomos que o fascínio é mútuo. Há entre as duas culturas uma reciprocidade genética que não deixa de nos perturbar e de nos esquecer o coração. É justamente pelo coração que a poesia nos une.

A leitura dos poemas inseridos nesta antologia deixa-nos na clara impressão de que existe uma estreita afinidade entre esta poesia <paulista> e a poesia produzida em território português na sua generalidade. O poema de Álvaro Alves de Faria, o primeiro autor desta antologia, intitulado < poemas para Coimbra>, permite-nos confirmar essa aproximação. Só é pena que o leitor tome contacto apenas com o primeiro desse poemas dedicados à cidade do Mondego, portanto encontramos nele uma candura tão sóbria e enxuta que mais parece ser mesmo um poeta do Mondego envolto pela saudade de um tempo passado. Por outro lado, e a confirmar a proximidade de que temos vindo a falar, encontramos nesta antologia dois poetas que, embora paulistas nasceram em Portugal. É o caso de Domingos Carvalho da Silva (um nome marcadamente português), nascido em Vila Nova de Gaia em 1915, cujo < Canto de Louvor da poesia > é um hino pessoal à essência desse mistério eterno que a poesia, e o do Marcos Leal, nascido em 1926, atualmente presidente da Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes. Podemos, ainda, encontrar nesta antologia outra achega a esta idéia, a qual pode ser confirmada no poema de Mário Chamie intitulado <flor bela>, e que é uma sentida homenagem á poesia e a personalidade de Florbela Espanca. A relação da poesia brasileira com a portuguesa não se fica por aqui. Se lermos o poema < II > de Vicente de carvalho (1866-1924), acerca da temática amorosa, encontramos nele uma forte influência camoniana. Trata-se de um pormenor que, embora secundário, não deixa de ser significativo, dada a consangüinidade, não apenas genética, mas também cultural, entre todos os poetas de língua portuguesa.

Entre os poetas paulistas ainda vivos, esta antologia completa vinte e oito autores, todos eles com obra premiada. De entre os poetas já desaparecidos, surgem nesta antologia vinte nomes, cuja obra é manifestamente importante no contexto, não apenas da poesia brasileira, mas também da poesia universal. É-nos aqui apresentada, assim, uma panorâmica vasta e, naturalmente, variada, da poesia brasileira contemporânea (e quando dizemos < contemporânea > estamos a incluir também os autores do século XIX, pois eles são os verdadeiros < contemporâneos > ) embora a temática seja algo confluente: o que está sempre em jogo em matéria de poesia é a reflexão sobre a própria condição humana. Tal como nos diz Miguel Reale, incluído nesta antologia, também ele um representante da filosofia brasileira, cujo nome é bastante respeitado em Portugal, < só o poeta nos dá resposta para as quais não há perguntas >. Esta máxima filosófica permite-nos compreender o quanto o pensamento deve ao Lirismo dos poetas, sendo que existe uma relação íntima entre o poesia e filosofia. A reflexão sobre a morte na sua relação dialética com a vida, é um das questões mais da toda a história da poesia ocidental. Nessa perspectiva, também os poetas paulistas a abordam, como é o caso de Paulo Bonfim, um poeta bastante traduzido na Europa e também aqui representado, que nos diz, no poema intitulado < poema da procura >, que < há um anjo da morte em cada esquina do universo >. Outra temática constante na reflexão em torno da condição humana é a questionação do tempo, outra matéria que sempre se situou na fronteira entre a poesia e a filosofia.

Mas encontramos nesta poesia também, e como não poderia deixar de ser, para além da temática amorosa, a notação cultural sobre a própria terra e as gentes que habitam. Este ultimo aspecto está mais ou menos presente em quase todos os autores desta antologia , nomeadamente nos poemas de Mariazinha Congílio (a jovial dominadora desta e de outras antologias da poesia brasileira), por vezes disfarçados por um confessionalismo poético que nos transportam para o imaginário íntimo do autor.

Entre os poetas vivos presente nesta antologia, é de salientar aqui uma outra faceta mais ousada, a roçar a desconstrução lingüística, ou até mesmo o próprio Surrealismo, cujo exemplo mais evidente pode ser observado no poema intitulado < Skoteinos >, de Luís Fernando Whitaker da Cunha, no qual é visível uma notória desconstrução da linguagem, bem como o uso de um vocabulário surrealmente combinado e algo nebuloso, aspecto que lhe confere uma perspectiva simbólica e misteriosa. A poesia é também a busca de novas significações.

Entre os poetas que o vento da história já viu partir, mas cuja memória permanece no domínio da história literária brasileira, encontramos nesta antologia alguns nomes importantes, seja no campo do movimento romântico, seja no da escola persiana, seja ainda, no movimento modernista de 1922. É de salientar o nome de Álvares de Azevedo (1831- 1852), um poeta prematuro quer na obra, quer na morte, que deixou uma obra curta significativa, pelo menos no que respeita a sua tendência declarada e assumidamente romântica, sobretudo visível na sua relação, ora doentia, ora efusiva, com a morte. Surge-nos também o nome de Manuel Amaral (1875- 1929), que a história literária considera um neoparnasiano. É de notar que o parnasianismo foi uma escola literária que, no Brasil segui princípios doutrinários mais rígidos e rigorosos em Portugal. São disso prova as varias polémicas jornalísticas e as posições de Sílvio Romero e de Machado de Assis. Este ultimo é considerado um percursor do parnasianismo brasileiro, e também está presente na parte final (dedicada a três poetas cariocas) desta antologia. Quanto aos poetas da célebre Semana da Arte Moderna de 1922, são de salientar Cassiano Ricardo (1895- 1974), Oswald de Andrade (1893-1945), este último considerado o nome mais representativo desta geração de artistas. Figura também nesta antologia o nome de um notável que também teve estreitas ligações com Portugal: o nome essencial de José Martins Fontes (1884- 1937).

Podemos dizer que nesta antologia da poesia paulista conclui com chave de ouro. Referimo-nos a Cecília Meireles (1901-1964) e a Vinícius de Moraes (1913-1980), duas experiências poéticas diferentes, mas de uma riqueza única e inexcedível. Cecília Meireles, ao contrário de Vinícius, é quase uma desconhecida do público português (embora ela também seja portuguesa, pois é açoriana de origem) e merece ser redescoberta, pois a leitura da sua obra deveria fazer parte integrante da nossa formação humanística.

A organização de uma antologia da poesia paulista (e para mais, publicada em Portugal) é um trabalho oportuno e meritório. Este livro deve-se ao esforço de Mariazinha Congílio, uma verdadeira lutadora e instigadora desse < traço de união > (expressão de Miguel Torga) entre o Brasil e Portugal, um traço cada vez mais nítido pela energia dos séculos.

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