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HILDA HILST, Nasceu em Jaú (São Paulo) em 21 de Abril de 1930. Formou-se em 1952 em Direito (Largo São Francisco). Poeta, dramaturga e ficcionista, Hilda Hilst escreve há quase cinqüenta anos. Ganhou os mais importantes prêmio literários do país. Alguns de seus textos foram traduzidos para o francês, inglês, espanhol e italiano. Atualmente a escritora prepara a sua " Obra Reunida (1950-1999) e o Sesc Pompéia expõe Sala Hilda
Hilst.
XX
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa esta vazia-
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só há monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova-
E revestida de luz te volto a ver.
XXII
Essa lua enlutada, desse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
as coisas planejadas: navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. e seria Dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essa coisa na ponta dos teus dedos
E tudo de se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo
Também isso te devo.
XXIV
Ai, que distanciamento, que montanha, que água
Estes rios fundos, o meu sumo escorrendo,
Esta chaga, ai, senhor, que, já não vejo
O tempo, ando ensombrada
Quase dormida e insone pela casa
E ao mesmo tempo raposa perseguida:
Se ontem ousava correr, hoje não ousa.
Antes se alegra
Do ouvido que escuta os cavalos correndo
A música dos instrumentos, dos cães o latido
E se deixa matar. Ai de mim, me conhecendo
Penitente sem ser preciso, com esse viço do amor.
Não me sabendo nunca perseguida
Mas sendo caça, indo a frente
E perseguindo o caçador.
XXXVIII
Se amor é merecimento
Tenho servido a Deus
Mui a contento
Se é vosso meu pensamento
em verdade vos dei
Consentimento
E se mereci tal vida
Plena de amor e serena
Foi muito bem merecida
E em me sabendo querida
Dos anjos e do meu Deus,
Na morte pressinto a vida.
E o que se diz sofrimento,
No meu sentir é agora
Contentamento.
E se amor morre com o tempo
Amor não é o que sinto
Neste momento.
XL
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E a noite se prepara e se advinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se vizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E Ter face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel.
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
LXIV
Tenho medo de ti e deste amor
Que à noite se transforma em seu verso e rima.
E o medo de te amar, meu triste amor,
Afasta o que aos meus olhos aproxima.
Conheço as conveniências da retina.
Muita coisa aprendi dos seus afetos:
Melhor colher os frutos na vindima
Que buscá-lo em vão pelos desertos.
Melhor solidão. Melhor ainda
Enlouquecendo os meus olhos, o escuro,
Que o súbito clarão de aurora vinda
Silenciosa dos vãos de um alto muro.
Melhor é não te ver. Antes ainda
Esquecer de que existe amor tão puro.
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