|
Bóia-fria
Passeando um dia pelo interior do país
me deparei com um imenso canavial,
vi um menino cortando cana;
era negrinho, da cor da cana queimada.
Era uma criança miúda, doze ou treze anos,
ligada com a pureza pelo cordão umbilical,
de mãos hábeis que manipulavam
o facão com uma força sem igual.
Cada golpe forte, brutal,
trazia a ganância do usineiro
que explorava mão-de-obra infantil,
como se fosse normal,
como é pelo interior do Brasil.
Num segundo eterno a tragédia
fez do menino uma vítima fatal,
o facão tão amigo, companheiro,
virou seu inimigo e ceifou-lhe a inocência
de uma infância angelical.
Virou um aleijado bóia-fria,
agora um escravo da produção de açúcar
que na manhã adoça meu café,
que bebo e jogo o resto na pia.
|
Voltar
|
|