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Patrícia Clemente tem 36 anos, e é solteira e ensina teatro para adolescente. É aquariana, com ascendente em escorpião, e não acredita em astrologia. Começou a escrever há pouco tempo, só depois que descobriu a Rede. Patrícia Clemente ama Brecht, Marianne Faithful e Cazuza.

Caridade

Um homem pobre um mendigo um trapo estende sua mão
para mim
eu paro
observo seu rosto
seu corpo
não há esperança em 
seus olhos

me comove
me comove
me comove 
me comove 

não tenho ouro nem prata mas o que tenho isso te dou

hesitar
estender
a mão para ele
estender
tocar
sorrir
pele sebo em minha mão 
cabelo graxa em minha mão
corpo nojo
meu ventre

sorrir
corar
ele ri ri e ri
ele me leva ao lixo
fala fala ao lixo
fala fala e fala
ele me leva ao lixo
eu não escuto nada
ele me leva ao lixo
sob o viaduto
sua casa

estive doente e não me visitastes

no canto escuro no lixo eu me deixo
estou seca
levanta o vestido
estou seca 
ele sôfrego dedos sujos
estou seca
minha pele minha
xana entre o lixo
estou seca
sinto insetos
estou seca
cheiro azedo
estou seca
retira dos trapos seu
estou seca
sexo eu corpo
estou seca
no meio das pernas o duro
estou seca
me raspa
estou seca
aperta 
estou seca
meus seios
estou seca
bafo azedo álcool podre
estou seca
entre o lixo
estou seca 
insetos
cerro os lábios
seca seca seca 
gemido
eu 
sufoco em meio ao lixo
quando goza em mim
eu nem percebi
seu em meu corpo enjôo 
afasto o seu corpo
eu fujo
eu
deixo calcinha atrás de mim

e ainda que eu desse o meu corpo para ser queimado

em casa
eu me lavo
horas a fio
até estar vermelha
horas a fio
até não suportar 
horas a fio
eu
queimo o vestido
eu 
encharco perfume
eu
deitada ainda sinto seu cheiro em mim.

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