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Fernando Bandini

O REI DA VELA

Quando publicou, em 1937, a peça teatral O Rei da Vela, Oswald de Andrade dedicou-o a Álvaro e Eugênia Moreyra, casal de amigos, acrescentando: " na dura criação de um enjeitado - o teatro nacional ". Oswald estava criando uma obra cuja repercussão ele não conheceria. Ela só chegou aos palcos em 1967 ( treze anos depois da morte do autor, falecido em 1954).

Dirigida por José Celso Martinez Correia, a montagem de O Rei da Vela, pelo grupo Oficina, teve sucesso de público, despertou polêmica e esquentou ainda mais o debate cultural do Brasil dos anos 60. Nessa década, Oswald esta sendo " revisitado " pelo Tropicalismo, pela contracultura, depois de ter passado pelo juízo severo e - no caso - favorável dos jovens poetas do Concretismo dos anos 50.

A peça conta a história de um agiota inescrupuloso, Abelardo I, que se casa com Heloísa, filha de um fazendeiro arruinado. Seu nomes são os mesmos de dois mais famosos amantes de literatura (uma espécie de Romeu e Julieta da França medieval). Mas de pureza desses, o casal da peça oswaldina não traz nada. Abelardo I casou-se por interesse, pelo nome e o prestígio de que dispunha sua mulher. Heloísa precisava de alguém que lhe devolvesse o conforto e o dinheiro que um dia tivera. Abelardo é o "rei da vela. Ganhou muito com a crise de 1929, negociando com fazendeiros desesperados e com alguns espertalhões do governo. Transformou a ruína de muitos em sua riqueza. Abriu uma fábrica de velas (num país medieval, quem se atreve a passar para os umbrais da eternidade sem uma vela na mão?", diz ele) e fatura com o negócio ("herdo um tostão de cada morto nacional").

Com negócios diversificados, sua especialidade são empréstimos. Aproveitando-se da crise econômica que flagela o país, Abelardo empresta dinheiro e cobra juros escorchantes. E ai daquele que se atrever a chamá-lo de usurário. Reforma os títulos, até o dia em que cobra tudo e deixa liso o devedor.

Prepotente, Abelardo pisa em quem pode, mas sabe que é apenas "um feitor do capital estrangeiro". Ingleses e norte - americanos comandam o jogo, no qual brasileiro só faz figuração. Heloísa, por exemplo, deve servir ao Americano, personagem que entra em cena no segundo ato da peça.

Oswald escreveu O Rei da Vela quando já não era mais o boa-vida endinheirado, que gastava dinheiro em Paris da década de 20. Herdeiro de uma fortuna, o escritor foi perdendo-a, quebrando na virada dos anos 30. Passou a vender obras de arte do período dos bolsos cheios. Passou também a percorrer os agiotas.

Autor de talento, transformou um episódio pessoal numa obra de reflexão crítica. Esbugalhou com o capital especulativo (ainda que diante do atual cassino globalizado, Alberto I possa parecer escoteiro), criticou a exploração do trabalho, investigou a tal identidade nacional, refletiu sobre a modernidade. Lida meio século depois, a peça mantém a contundência. Oswald de Andrade não era futurólogo, mas parecia saber que sistemas vão e vêm, doutrinas somem do mapa, mas que espíritos como de Alberto têm fôlego eterno.

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