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A ESCRITA JUNDIAÍ

Nasci, vivo e morrerei em Jundiaí. Minha terra é minha pátria. Também não tenho pátria, tenho mátria. Sou cidadão do mundo, sabedor que a morte da criança desnutrida em outra cidade ou em outro país, afeta-me profundamente, pois somos seres da mesma espécie.

Sou um homem livre em minhas aspirações e prisioneiro de minhas próprias limitações. Como qualquer um, voltarei à terra molhada e do pó serei arte, em prosa-poética, na cadeia alimentar serei parte.

Às bactérias e germes lançarei meu patrimônio corporal; aos amigos deixarei saudade e aos inimigos, minha provocação intelectual. Medíocre e tola, quando em breve palavreado, lanço ao vento a imagem de um mundo feio-acinzentado.

Hoje, a pedidos, a escrita será sobre Jundiaí. A cidade dos sonhos é aqui. Com suas contradições e insatisfações. Às vezes com meio milhão de habitantes, por vezes pensada como cidadela interiorana que teima em brincar de criança por entre árvores fincadas na praça do centro, perto do coreto onde habita a imortal santa.

Na noite escura, recebe seus mais ilustres moradores que revelam um povo oculto, de face escondida e de prazeres recalcados: Há rameiras que alimentam filhos e netos; há filhos em programas de amor proibidos ao raiar do dia, e como tudo na vida não é poesia, há a prostituição travestida de mulher que teima em registrar na cédula um nome de homem.

Aos adidos e fracos, adeptos do vício de cheirar, há a parceria, na noite, na conjugação do verbo matar, a si e a outrem, pois quem se intoxica adota o garoto da entrega, o homem da distribuição e o capitalista do financiamento. Às vezes, o ilustre em nosso pensamento.

E a tola hipocrisia cobra a ação do verbo prender, como se fosse a única solução, na amostragem do nosso pouco desenvolvimento mental, pois o humano é o único que enjaula seu irmão, em toda espécie animal.

Há ruas largas e estreitas, no namoro de seus filhos amantes. Há outra praça, além da central, por essa se entra e se sai, e duas avenidas, largas e contínuas. Uma é o nome da cidade e a outra a rasga em julho, como revolução, de quinta a domingo, quando a buzina é a expressão da inteligência pensante.

A morte ronda as competições de velocidade, entre vidas que apenas observam e outras que reprovam com galhardia, ambas divorciadas da criação: se não há lazer, mata-se por diversão, no corre-corre da ilusão.

Há uma politicagem mesquinha, no trato com seus cidadãos. Há os que se locupletam às custas da ignorância alheia, e há os que se matam por migalhas sob o foco do farol da lua cheia. Há os que se entregam à comunidade, no ato de beijar a lágrima excluída da humanidade.

Há pecadores e santos em andanças livres pelas ruas. Há amigos das horas incertas e há julgadores para todas as horas.

Há os que pensam que são democratas na razão direta de suas vontades expressadas em votos que outros representam. Há uma ignorância contida por achar que o sufrágio universal é a única saída. Depositam suas vidas nas mãos de um único mortal.

Mal sabem que pensar e agir, no livre exercício da cidadania, encontram guarida constitucional. O fazer tornou-se natural. Faça, é legal!

Há manifestação de vontade, soberana e leal, no pleno exercício de cada capacidade mental. Uns acham, outros sabem. Uns falam, outros fazem. Uns se calam, outros calam. Sofrem o efeito dos defeitos da capital.

Todos vivem sob um mesmo céu de anil. Pode ser lindo, pode ser feio e chuvoso. Mas o verde que nos alimenta, também precisa da chuva que a alguns atormenta.

Uma melhor qualidade de vida para todos os habitantes desta cidade, não será conquistada apenas por alguns, mas sim por todos aqueles que sonham com uma terra gentil e humanista, habitada por pessoas que marcham para a labuta com fé e devoção.

Afinal, somos todos irmãos! Jundiaienses por nascimento ou opção!

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