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A Alma
No começo era uma brincadeira como
outra qualquer. Pulava de época
em época como mero joguinho
de aprendizado. Ora era escravo lutando
pela liberdade de viver e falar. Ora era rei
exercitando seu poder de cabeças cortar.
O tempo era amigo de sua farta imaginação.
Cortesãs, soldados, mercenários, políticos,
assassinos, religiosos, abastados,
nada nem ninguém escapavam de sua
louca vontade de brincar de viver.
Fazia do sonhar a sublime arte de pensar.
A vida era sua aliada pela longa
eternidade. Até profeta ousou ser.
Num desequilíbrio de vaidade,
quase revela os segredos da morte
como fim de qualquer idade.
Virou mito e símbolo de sanidade.
De tanto brincar, brincou de se
esquecer da melancolia. Uma dor
tão forte que chamou de amor
para poder senti-la entre a loucura
e a agonia. Sentiu-se triste, como
nunca havia se sentido em plena alegoria.
Morreu novamente, infeliz, fruto de
alguma medíocre e boba fantasia.
Nasceu poeta, para continuar a
brincar com as palavras,
assim novamente pensou enganar
a lancinante dor que de amor o matou um dia.
Coitado! Faz versos tentando aplacar
a solidão e provar sua tola teoria:
O amor é para os fracos e ao guerreiro
cabe lutar por ideais e morrer em
plena luz do dia. Apunhalado pelas costas,
em folhetim barato feito sangria.
Pobre alma! Evaporou-se entre
uma vida e outra. Virou nostalgia.
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