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Fome
Outro dia estava parado em um cruzamento
quando um menino de rua se encostou em
meu carro e com cara de morte pediu que
eu lhe comprasse um lanche, pois ele
estava morrendo de fome.
Dono da verdade e sendo um ativista político
contra a fome, disse com ar um tanto superior
e altivo que eu nada daria. Minha inteligência
e meu conhecimento racional determinam que
a mendicância é meio caminho para a juvenil
marginalidade.
___Vou lhes confessar a minha imbecilidade:
O olhar daquele garoto não me sai da memória,
é o peso da fome contra a burra racionalidade.
Qualquer projeto, todo programa passa pela
concessão de poder. Pelo beneplácito da divisão.
Meu Deus! Sei que não funciona assim. O poder
enquanto avanço social não se doa, não se empresta,
não se concede nem se oferece. Se conquista!
Somos o que somos pela conquista. Pelas amargas
noites de estudos. Pelas claras madrugadas de
insônia. Pelo desamparo nas encruzilhadas dos
desenganos. Quem pode dizer do quinhão pela
divisão do poder? Quem nessa vida tem pós-morte
tal saber?
Ora miséria em confronto com minha sabedoria,
tem direito ao combate na busca da parte que
lhe cabe e que de outra forma não lhe daria.
Posso lhe dar esmolas, meu conhecimento, minhas
ações de cidadania. Mas o lanche da esquina,
menino de rua, pegue, tome, assalte, busque,
é sua quota-parte da nossa parca mesquinharia.
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